quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Continuação TEODORINHO TRINCA-FERRO


Continuação TEODORINHO TRINCA-FERRO 
2ª partição





Dos antigos, com quem aprendeu a “mandinga”, recordava-se de alguns, cujas reminiscências transformavam-se em diversos causos que sua memória privilegiada sabia resgatar: “Zé Pequeno, Boca Preta, Mão de Onça, Calango, Dez Pedaços, Hilário Braúna, Jacaré, João Quebra Coco, Negro Saci, Manoel Mata Onça, Corre Diabo e Clementino Coice de Mula” ― citou sem pestanejar.


Dentre os escravos que conheceu, “pelos mato, enfrentando o capitão e a força” falava especialmente de Zé Pequeno, Dez Pedaços, Corre Diabo e Negro Saci como sendo seus professores. Levou “muita surra” para aprender os fundamentos do “apercebimento”. Dizia que ninguém foi maior que Hilário Braúna ou Manoel Mata Onça: “Pra esses dois, não tinha arma de fogo que desse jeito. Quando vinha pra cima dos soldado, arrebentava tudo. Nada ficava de pé. Eles tinha a força do estampido do trovão. Saia arrancando pedaço de pau com golpe de pé de mão no meio da mata que dava medo” ― afirmava, ilustrando a história com alguns casos.
Contou que, em certa ocasião, o negro Hilário Braúna foi emboscado pela Força, na mata, do outro lado do Mucuri, na Bahia. Tinha uns trinta soldados comandados pelo capitão-do-mato de nome Cearense, “que era um matadô medonho”. Mas não teve medo. Quando Hilário atravessou o rio a nado, foi recebido a tiros pela captura, que não deixava ele sair de dentro da água barrenta.
Ele mergulhou e vazou longe, rodou por trás e pegou a Força pela retaguarda. Derrubou uma dúzia de soldados “na perna, arrebentando o peito e os osso deles na escuridão da noite”. Os que puderam fugir tiveram que cair no rio. Alguns ficaram estirados, moídos pelos golpes da “luta travada” sem que o negro Braúna tivesse sofrido um arranhão.
O temido capitão-do-mato havia jurado a morte dele, mas, antes da Abolição, morreu no Quilombo de Sant’Ana, na luta com negro Rugério. Hilário “morreu de velho, na mata, muito tempo depois” ― disse Teodorinho. Mas o caso que ficou conhecido foi o de Manoel Mata Onça, escravo da fazenda de Dona Rita Maria Conceição Gomes da Cunha, mãe do Barão de Aymorés. Tinha quase dois metros e era muito forte. Só andava pela mata, de noite, feito bicho. Um dia, “lá pras banda do Aricanga”, encontrou duas onças pintadas. “Os bicho partiram pra cima dele”.
Manoel enfrentou os animais “na perna e na mão. Foi matando um por um no golpe e no facão”. Dizem que, depois, amarrou um em cima do outro e, numa zorra (espécie de trenó para puxar madeira), os trouxe até onde viviam uns negros escondidos. “comeram a carne num assado” ― contava, com orgulho.
Admitia que aprendera mesmo “a luta da angola” com Zé Pequeno, Dez Pedaços, Corre Diabo e Negro Saci. “Ainda molecote”, tinha de enfrenta-los de vez em quanto, “na vera”, chegando a “apanhar de ficar moído no chão, quase morto”. Sabia que aquele ensinamento representava sua sobrevivência em frente o inimigo.
Teodorinho dizia, com um misto de satisfação e mágoa, que nunca tinha sido escravo. Não tinha sofrido a dor do padecimento nos ferros e nem a humilhação na Praça do Commércio, no Porto. Nunca tinha levado um açoite dos feitores. Quando deu por si, “já era rapazola, nos mato, junto com os negro fugido”. Tinha aprendido a “luta travada” e sabia que seria preciso passar por aquele aprendizado para que pudesse livrar-se do inimigo e “sabê se defender, no escapulo” ― situação inesperada e de necessidade de fuga.
Acreditava que havia cumprido boa parte de sua missão. Formara muitos “capoeira”, que formaram outros pelos anos que se seguiram. Lembrava-se de alguns dos “menino”que aprenderam o “apercebimento de guerra" apanhando. Vinham pra cima pra arrancar a cabêça, nunca queria perdê”. Tinham o sangue dos quilombolas, sangue do negro que nunca aceitou a escravidão. Gente que sabia que “tinha uma arma na mão, na cabeça e no pé” ― falava.
Dos que aprenderam com ele, recordava-se de Afonsinho Brandino ― o Vira Tora, Cisplatino Curió, Pelo Avesso, Otávio Busca-Pé, Balbino Andrezza ― o Vaga-Lume, Coração de Seda, João Ferro Velho, Serafim dos Santos, Mateuzinho da Hora, Benedito Gonçalo ― o Cana Brava, João Geraldino, Binote Valeriano, Clementino Alexandre ― o Tromba d’Água, Arildo Serafim, Zé Apolinário, Ambrósio da Conceição, Benedito Alexandre e Lourenço dos Anjos ― o Estica Couro.
Desses “menino”, muitos já haviam morrido, outros nunca mais soube notícias. Relembrava casos de muitas brigas na Cidade Baixa de São Mateus, “quando ia pra lá arranjá emprego na estiva e acabava se metendo em encrenca com polícia por causa de mulhé dama”. Naquele tempo, na Cidade Baixa de São Mateus ― com o comércio marítimo dominado pelos grandes negociantes de farinha de mandioca, café e madeira ―, o Porto era o único lugar para o ex-escravo trabalhar.
Nunca “fugiu da briga, mesmo que fosse pra enfrentá arma de fogo. Não era pra corrê do estanho. Tinha que desviá da bala e, se o tiro fosse de mosquetão, tinha que desviá do chumbo. Mas não podia corrê. Não podia ficá com medo. Tinha que quebrá o inimigo na perna, na cabeçada ou no cutelo” ― garantia o mestre.
Lamentava a morte, “covarde”, de alguns de seus “menino”, como o caso de Pelo Avesso: “Ele tava brigando com uns polícia e um terceiro atirou pela costa, na covardia. Sabia que, de frente, não iam aguentá com Pelo Avesso” ― que recebeu o apelido por dizer sempre que ia virar o inimigo pelo avesso.


Lembrava que esse caso se deu em função de um policial ter dado uma surra numa criança que tinha roubado uma manga num quintal da Rua dos Ricos: “Era só uma fruta pra matá a fome. Mas o polícia pegô o menino e bateu que dava pena. Foi quando avisáro a Pelo Avesso, que já veio arrebentando os polícia. Já tinha derrubado dois na perna”. Nessa época, “matar um negro não era crime. Penso que até agora também não é” ― contou, ainda com revolta.
Dizia que, após a Abolição, os negros ficaram ainda mais sujeitos a apanhar dos soldados e dos capangas dos senhores. Muitos tinham medo de reagir. “Apanhava feito boi teimoso”. Mas quando era um “que eles chamava de capoêra, a coisa ficava diferente. Muito que levantô a mão pra batê nunca mais viu a luz do dia. Recebêro um golpe que não dava tempo para pensá. Caía no chão, estribuchando”― dizia.

Próxima parte em 17.10.2012.

FMB agradece sua visita. 


2 comentários:

Nevasca! Juliana! disse...

Adoreiiii a postagem sobre Teodorinho.. moro no ES e estava a procura de relatos sobre ele...muito obrigada!

silviocapoeira@gmail.com disse...

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