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terça-feira, 30 de julho de 2013

ITAPOAN


Mestre Itapoan, um dos mais notáveis alunos de Mestre Bimba, nos conta a sua jornada disseminando os ensinamentos aprendidos com o seu Mestre.
São 35 minutos de conversa informativa e reveladora de aspectos importantes da Capoeira Regional.
Itapoan é membro do Conselho Curador da Fundação Mestre Bimba.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

ORIGEM DA CAPOEIRA - PARTE VI/VI - FINAL



FINAL
Chegada da Família Real no Rio de Janeiro
A partir de 1808, com a vinda da Família Real para o Brasil, houve uma necessidade muito grande de mão de obra lá, porque não foi só a Família Real, houve uma quantidade de navios muito grande, toda a corte portuguesa fugindo com medo de Napoleão. Esses escravos para atenderem a corte portuguesa no Rio de Janeiro, não poderiam ser recém chegados da África, tinham de ser já abrasileirados, já falando português, então o que aconteceu: a Bahia enviou, vamos dizer exportou, muita mão de obra escrava pra lá inclusive com interesse de lucro e esses escravos levaram o conhecimento para o Rio de Janeiro. As grandes manifestações, os capoeiras do Rio de Janeiro, acontecem a partir dessa data. A mesma coisa aconteceu em Minas Gerais, quando houve uma maior exploração das jazidas auríferas. Houve necessidade de uma mão de obra escrava. Alem dos que vinham diretamente da África, muitos escravos da Bahia foi pra lá e levou o conhecimento da capoeira. Hoje a capoeira esta disseminada em todo o mundo inclusive na África, mas a sua origem é aqui em Salvador e na zona rural.
Eu estou a disposição de vocês para qualquer duvida, se quiserem fazer consultas através do blog, e queria agradecer pela oportunidade que tive de expressar minhas ideias, o resultado das minhas pesquisas. Vocês do Blogbimba o meu abraço.

NOTA DA EDIÇÃO
Prezados leitores do BLOGBIMBA. 
Agradecemos a brilhante audiência e as manifestações recebidas de diferentes partes do mundo. A narrativa, apresentada em formato didático, cumpriu com a sua função de esclarecer pontos controversos sobre a origem da capoeira. Leitores do Brasil, Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido, França, Itália, Espanha, Portugal, Bélgica e Japão visualizaram e expressaram a sua opinião sobre o tema.
O próximo trabalho, nessa linha de edição, apresentará, também com exclusividade, o Acervo de Mestre Itapoan, considerado o maior conjunto de documentos do mundo sobre Mestre Bimba.








segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

ORIGEM DA CAPOEIRA - PARTE V/VI



PARTE V/VI


Mas voltando a nossa ideia da origem da capoeira, nesse lugar, chamado de capoeira, o africano tentava desenvolver um método de evitar ou reduzir o castigo que ele sofria. Não podia reagir abertamente porque seria morto, imagine um escravo dando um soco na cara do dono da fazenda ou do capataz, estava morto. Mas também ficar apanhando daquele cara é chato. Então a capoeira começou nesse local chamado capoeira essencialmente defensiva, de escape, de negaça, de engano, pra evitar ou reduzir o impacto de um golpe, reduzir o sofrimento. 

Muito jogo de chão, aí ela entrava na parte do escapismo, porque é difícil você atingir uma pessoa quando ela está se movimentando, não à sua altura, mas no chão. Esse foi o início básico da capoeira, a troca de ideias entre os africanos, que tipo de defesa, que tipo de ardil ele podia usar. Naturalmente, a medida que o tempo foi passando, entre eles, esse treinamento, foi incorporando golpes de contra ataque até que a capoeira se tornou efetivamente mais ofensiva. Mas, o ponto central, é que só Salvador e o entorno da Baía de Todos os Santos reuniu condições pra no inicio da colonização através da grande quantidade de mão de obra escrava e a situação relativamente tranquila, a capoeira se desenvolvesse. Alguns capoeiristas, a exemplo do mestre Saci, alegam que a capoeira poderia ter sido urbana e não rural. 

Rampa do Mercado Modelo - SSA/BA
Bom, o próprio nome capoeira implica numa área de mato e devido exatamente a esse transporte intenso de víveres para Salvador, com mão de obra escrava, a embarcação quando chegava no porto esperando a maré encher, ou carregando e descarregando, os escravos treinavam capoeira. O mestre saveirista também, é porisso que geralmente o mestre de saveiro era também um bom capoeirista. Daí, não é que ela tivesse origem no cais de Salvador. Houve muita capoeira que evoluiu em cais, mas tanto de Salvador como no cais das cidades do recôncavo, do interior baiano. Essa é a ideia básica da origem da capoeira. Eu não encontrei fora de Salvador, fora da Bahia, condições onde ela pudesse evoluir.

PARTE IV/VI

Como aqui era a sede do Governo Geral, havia Câmara, havia Juiz, havia todo um assentamento legal, tinha um pelourinho. É natural que toda essa gente precisasse de comer e a Baía de Todos os Santos, o maior acidente geográfico dessa natureza aqui no Brasil, com suas águas calmas, propiciava que no seu entorno houvesse, além desses engenhos, criação de gado, criação de galinha, plantação de hortifrutigranjeiros, e o transporte dessas cidades que foram chamadas zonas do recôncavo, São Felix, Cachoeira, Maragogipe, Nazaré das Farinhas, Muritiba, o transporte era feito por embarcações dentro da baía, também com mão de obra escrava. Além desses fatores políticos e geográficos, tem um fator humano interessante. Duas figuras históricas, logo no começo da colonização, ajudaram muito o desenvolvimento e a criar um ambiente de certa tranquilidade. Os índios que eram uma ameaça, uma dificuldade, em outros locais do Brasil, aqui o nosso Caramurú, Diogo Alvares Correia, casou-se com duas filhas do cacique e tinha um trânsito muito bom entre os indígenas. 

Castelo da Torre - 1ª edificação portuguesa no Brasil
Um parente de Tomé de Sousa, da família Garcia D'Avila, a cerca de 100 Km ao norte de Salvador, construiu o Castelo da Torre, que existe até hoje, e também tinha uma ascendência muito grande sobre os índios. Criou gado. Tinha um exército particular maior do que o exército português. A esquadra portuguesa podia ter abrigo na nossa baía. Todas essas condições levaram a uma população expressiva aqui em Salvador e uma quantidade muito grande de mão de obra escrava. Bom, à medida que o escravo, também tradição da capoeira, não aceitar o domínio, abrindo um parêntese, esse domínio, na época por um fato histórico foi do branco sobre o negro, mas Mestre Bimba sempre falava que capoeira não tem cor e nem tem dono, capoeira é um pensamento, muito mais do que uma luta é uma estratégia, ele não chamava de estratégia, chamava de malandragem, mas agente pode traduzir por estratégia, de você não aceitar o domínio do mais forte sobre o mais fraco. Pode ser um domínio econômico, pode ser um domínio físico, pode ser um domínio político, pode ser até o domínio do marido sobre a mulher. Hoje, esse domínio é daquele que detêm o capital sobre os que tem pouco ou nada tem. Mas não é uma coisa exclusiva da etnia negra, o conhecimento é uma coisa universal.






domingo, 2 de dezembro de 2012

ORIGEM DA CAPOEIRA - PARTE IV/VI



PARTE IV/VI

Como aqui era a sede do Governo Geral, havia Câmara, havia Juiz, havia todo um assentamento legal, tinha um pelourinho. É natural que toda essa gente precisasse de comer e a Baía de Todos os Santos, o maior acidente geográfico dessa natureza aqui no Brasil, com suas águas calmas, propiciava que no seu entorno houvesse, além desses engenhos, criação de gado, criação de galinha, plantação de hortifrutigranjeiros, e o transporte dessas cidades que foram chamadas zonas do recôncavo, São Felix, Cachoeira, Maragogipe, Nazaré das Farinhas, Muritiba, o transporte era feito por embarcações dentro da baía, também com mão de obra escrava. Além desses fatores políticos e geográficos, tem um fator humano interessante. Duas figuras históricas, logo no começo da colonização, ajudaram muito o desenvolvimento e a criar um ambiente de certa tranquilidade. Os índios que eram uma ameaça, uma dificuldade, em outros locais do Brasil, aqui o nosso Caramurú, Diogo Alvares Correia, casou-se com duas filhas do cacique e tinha um trânsito muito bom entre os indígenas. 

Castelo da Torre - 1ª edificação portuguesa no Brasil
Um parente de Tomé de Sousa, da família Garcia D'Avila, a cerca de 100 Km ao norte de Salvador, construiu o Castelo da Torre, que existe até hoje, e também tinha uma ascendência muito grande sobre os índios. Criou gado. Tinha um exército particular maior do que o exército português. A esquadra portuguesa podia ter abrigo na nossa baía. Todas essas condições levaram a uma população expressiva aqui em Salvador e uma quantidade muito grande de mão de obra escrava. Bom, à medida que o escravo, também tradição da capoeira, não aceitar o domínio, abrindo um parêntese, esse domínio, na época por um fato histórico foi do branco sobre o negro, mas Mestre Bimba sempre falava que capoeira não tem cor e nem tem dono, capoeira é um pensamento, muito mais do que uma luta é uma estratégia, ele não chamava de estratégia, chamava de malandragem, mas agente pode traduzir por estratégia, de você não aceitar o domínio do mais forte sobre o mais fraco. Pode ser um domínio econômico, pode ser um domínio físico, pode ser um domínio político, pode ser até o domínio do marido sobre a mulher. Hoje, esse domínio é daquele que detêm o capital sobre os que tem pouco ou nada tem. Mas não é uma coisa exclusiva da etnia negra, o conhecimento é uma coisa universal.


PARTE III
Bom, o local do Brasil, com toda certeza, seria aquele que no início da colonização, a segunda metade do século XV, XVI, XVII, houvesse uma quantidade muito expressiva de mão de obra escravo e condições ambientais para que a capoeira se desenvolvesse. Aqui na Bahia, a cidade de Salvador, foi fundada em 1549. O governo Português, preocupado em colonizar aquela extensão enorme de terra, tentou primeiro dividir em faixas, que chamou de capitanias hereditárias. 

Chegada de Tomé de Sousa à Bahia - Gravura sec XIX
Mesmo durante a vigência das capitanias, havia necessidade de uma representação, vamos dizer assim, oficial do governo português, um mínimo de legalidade e foi fundada a cidade de Salvador aqui no Estado da Bahia, onde ocorreu também o primeiro arcebispado, o primeiro hospital, que foi a Santa Casa da Misericórdia, mais tarde a primeira Faculdade de Medicina, do Brasil, e até 1808, quando veio a Família Real Portuguesa para o Brasil e transferiu a capital para o Rio de Janeiro, o grande movimento de pessoas, de atividades produtivas e de mão de obra escrava, foi aqui. Duzentos e cinquenta anos. É verdade que algumas capitanias, como São Vicente e Pernambuco, tiveram sucesso relativo, mas nós estamos falando de seis, no máximo 10, engenhos, por exemplo. O historiador e Governador da Bahia Luiz Viana Filho, com base nas pesquisas de Wanderley de Pinho, apontou 31 engenhos no entorno da Baía de Todos os Santos, em 1630. Imaginem, 31 engenhos, tudo isso movido a mão de obra escrava. Continua na Parte IV





sábado, 1 de dezembro de 2012

ORIGEM DA CAPOEIRA - PARTE III



PARTE III
Bom, o local do Brasil, com toda certeza, seria aquele que no início da colonização, a segunda metade do século XV, XVI, XVII, houvesse uma quantidade muito expressiva de mão de obra escravo e condições ambientais para que a capoeira se desenvolvesse. Aqui na Bahia, a cidade de Salvador, foi fundada em 1549. O governo Português, preocupado em colonizar aquela extensão enorme de terra, tentou primeiro dividir em faixas, que chamou de capitanias hereditárias. 

Chegada de Tomé de Sousa à Bahia - Gravura sec XIX
Mesmo durante a vigência das capitanias, havia necessidade de uma representação, vamos dizer assim, oficial do governo português, um mínimo de legalidade e foi fundada a cidade de Salvador aqui no Estado da Bahia, onde ocorreu também o primeiro arcebispado, o primeiro hospital, que foi a Santa Casa da Misericórdia, mais tarde a primeira Faculdade de Medicina, do Brasil, e até 1808, quando veio a Família Real Portuguesa para o Brasil e transferiu a capital para o Rio de Janeiro, o grande movimento de pessoas, de atividades produtivas e de mão de obra escrava, foi aqui. Duzentos e cinquenta anos. É verdade que algumas capitanias, como São Vicente e Pernambuco, tiveram sucesso relativo, mas nós estamos falando de seis, no máximo 10, engenhos, por exemplo. O historiador e Governador da Bahia Luiz Viana Filho, com base nas pesquisas de Wanderley de Pinho, apontou 31 engenhos no entorno da Baía de Todos os Santos, em 1630. Imaginem, 31 engenhos, tudo isso movido a mão de obra escrava. Continua na Parte IV


Parte II
Primeiro, a capoeira não veio da África, as raízes são africanas. Ela começou a ser desenvolvida pelos africanos, mas aqui no Brasil. Isso é facilmente comprovável porque não existe nenhuma atividade sequer parecida com a capoeira, com toda a sua riqueza, a musicalidade, os movimentos, a luta, a filosofia. Existem na África como em outras localidades, até na América do Sul, algumas lutas primitivas, alguns movimentos acrobáticos, como a famosa Dança da Zebra, mas ali era só exibicionismo para impressionar as mocinhas na idade de casar. Não era uma luta, não havia acompanhamento musical, não havia filosofia, não tinha nada a ver.

 O instrumento sim, o berimbau ele veio da África, mas ele era utilizado em cerimonias religiosas, em eventos sociais, como casamentos, aniversários, festividades, não era para acompanhar a luta e fato também interessante, a música, o ritmo tem na África, só que a musicalidade agente encontra no Norte da África e o berimbau no Sul, no meio tem o deserto de Saara. Só foi possível o encontro desse ritmo com esse instrumento aqui no Brasil, porque os escravos eram de várias etnias. Se existe influência indígena, a única influência é o nome, o nome capoeira, caapoeira, é tupi-guarani, se refere a um local limpo, arado, capinado, aplainado, onde era, entre outras atividades, local de criação de galinha, daí a expressão capoeira de galinha. Servia de depósito e servia também nas reuniões dos escravos nos momentos de lazer. 


Assim, deve ter começado a capoeira. Nesses momentos de lazer, os folguedos, o uso de instrumentos primitivos, passos de dança, acrobacias e a troca de idéias. Uma das tradições básicas da capoeira é a socialização entre os heterogêneos, porque a única forma dos escravos se tornarem mais fortes para reagir ao domínio branco, era exatamente a socialização entre eles, falando línguas diferentes, com costumes diferentes, com cultura diferente. Aqui na Bahia mesmo tinha os Malês que sabiam escrever, sabiam matemática, eram muçulmanos, mas, fica ainda a pergunta: Em que local do Brasil e se isso ocorreu numa cidade ou no interior?       Continua na Parte III. 







quinta-feira, 29 de novembro de 2012

ORIGEM DA CAPOEIRA - Parte II





TEXTO:

Parte I
Oto Roberto Malta Santos, urso branco, 1ª geração de Bimba, é mestre em administração pela Universidade Metodista de São Paulo. Professor renomado de várias disciplinas na área de administração, desenvolve estudos sobre a história do Brasil e brinda os leitores do BLOGBIMBA com exclusiva narrativa, esclarecedora de diversas questões sempre presentes nas conversas de capoeira. Boa tarde mestre Oto!

Prezados fãs do Blogbimba. 
Essas dúvidas que nos tem chegado, são dúvidas relativamente comuns. Várias vezes os interessados em capoeira, os pesquisadores, exatamente por ser uma atividade que começou na clandestinidade, começou ilegal, não há muitos registros, não há anotações. Existem documentos históricos relacionados direta ou indiretamente, mas registros históricos, do início, da origem da capoeira, são muito raros, daí sempre surgirem essas dúvidas. Que dúvidas seriam essas? 
A capoeira veio da África com os africanos ou a capoeira foi desenvolvida no Brasil; a capoeira é baiana ou é de outra localidade do Brasil; a capoeira é rural ou é urbana; a capoeira tem alguma influência indígena? Então, essas dúvidas eu gostaria de trazer para vocês, a título de colaboração, o resultado de algumas pesquisas que fiz ajudado por outros mestres e companheiros que também são interessados nesses assuntos. 

Parte II
Primeiro! A capoeira não veio da África, as raízes são africanas. Ela começou a ser desenvolvida pelos africanos, mas aqui no Brasil. Isso é facilmente comprovável porque não existe nenhuma atividade sequer parecida com a capoeira, com toda a sua riqueza, a musicalidade, os movimentos, a luta, a filosofia. Existem na África como em outras localidades, até na América do Sul, algumas lutas primitivas, alguns movimentos acrobáticos, como a famosa Dança da Zebra, mas ali era só exibicionismo para impressionar as mocinhas na idade de casar. Não era uma luta, não havia acompanhamento musical, não havia filosofia, não tinha nada a ver.

 O instrumento sim, o berimbau ele veio da África, mas ele era utilizado em cerimonias religiosas, em eventos sociais, como casamentos, aniversários, festividades, não era para acompanhar a luta e fato também interessante, a música, o ritmo tem na África, só que a musicalidade agente encontra no Norte da África e o berimbau no Sul, no meio tem o deserto de Saara. Só foi possível o encontro desse ritmo com esse instrumento aqui no Brasil, porque os escravos eram de várias etnias. Se existe influência indígena, a única influência é o nome, o nome capoeira, caapoeira, é tupi-guarani, se refere a um local limpo, arado, capinado, aplainado, onde era, entre outras atividades, local de criação de galinha, daí a expressão capoeira de galinha. Servia de depósito e servia também nas reuniões dos escravos nos momentos de lazer. 


Assim, deve ter começado a capoeira. Nesses momentos de lazer, os folguedos, o uso de instrumentos primitivos, passos de dança, acrobacias e a troca de idéias. Uma das tradições básicas da capoeira é a socialização entre os heterogêneos, porque a única forma dos escravos se tornarem mais fortes para reagir ao domínio branco, era exatamente a socialização entre eles, falando línguas diferentes, com costumes diferentes, com cultura diferente. Aqui na Bahia mesmo tinha os Malês que sabiam escrever, sabiam matemática, eram muçulmanos, mas, fica ainda a pergunta: Em que local do Brasil e se isso ocorreu numa cidade ou no interior?       Continua na Parte III. 





ORIGEM DA CAPOEIRA - Parte I



Prezados leitores do BLOGBIMBA.

Iniciamos a narrativa sobre a origem da capoeira, por mestre OTO. 
São seis vídeos com publicação programada para 29(2:46) e 30/11(3:47), 01(3:03), 02(3:59), 03(3:53) e 04/12(3:23). As narrativas são acompanhadas de texto para uma melhor fixação. 
Os comentários devem ser feitos no proprio blog, a fim de que todos os leitores possam compartilhar.

Esperamos que a sua expectativa seja atendida!




TEXTO:
Oto Roberto Malta Santos, urso branco, 1ª geração de Bimba, é mestre em administração pela Universidade Metodista de São Paulo. Professor renomado de várias disciplinas na área de administração, desenvolve estudos sobre a história do Brasil e brinda os leitores do BLOGBIMBA com exclusiva narrativa, esclarecedora de diversas questões sempre presentes nas conversas de capoeira. Boa tarde mestre Oto!

Prezados fãs do Blogbimba. 
Essas dúvidas que nos tem chegado, são dúvidas relativamente comuns. Várias vezes os interessados em capoeira, os pesquisadores, exatamente por ser uma atividade que começou na clandestinidade, começou ilegal, não há muitos registros, não há anotações. Existem documentos históricos relacionados direta ou indiretamente, mas registros históricos, do início, da origem da capoeira, são muito raros, daí sempre surgirem essas dúvidas. Que dúvidas seriam essas? 
A capoeira veio da África com os africanos ou a capoeira foi desenvolvida no Brasil; a capoeira é baiana ou é de outra localidade do Brasil; a capoeira é rural ou é urbana; a capoeira tem alguma influência indígena? Então, essas dúvidas eu gostaria de trazer para vocês, a título de colaboração, o resultado de algumas pesquisas que fiz ajudado por outros mestres e companheiros que também são interessados nesses assuntos. Continua na parte II.



DICA: Para visualizar as matérias publicadas no mês, clique no Gadget CONTEÚDO e escolha o período.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

ARTE TRIBAL AFRICANA




A coleção ARTE TRIBAL AFRICANA, em exposição no Salão Branco do Congresso Nacional, Brasília, DF, é parte do acervo do ÁfricaBrasil Museu Intercontinental, instalado em São Mateus, ES.
Nos próximos quatro anos a exposição percorrerá vários estados brasileiros e um recorte passará pelos museus da Alemanha, França, Espanha, Portugal, Suiça, Inglaterra e Estados Unidos.
O acervo é constituido de 4.800 máscaras e esculturas originais, procedentes de dezenas de tribos africanas dos séculos XVII, XVIII, XIX e primeiro quartel do século XX, colecionadas durante 35 anos pelo escritor Maciel de Aguiar.




quarta-feira, 17 de outubro de 2012

TEODORINHO TRINCA–FERRO - Final




Dizia que, após a Abolição, os negros ficaram ainda mais sujeitos a apanhar dos soldados e dos capangas dos senhores. Muitos tinham medo de reagir. “Apanhava feito boi teimoso”. Mas quando era um “que eles chamava de capoêra, a coisa ficava diferente. Muito que levantô a mão pra batê nunca mais viu a luz do dia. Recebêro um golpe que não dava tempo para pensá. Caía no chão, estribuchando”― dizia.

CIDADE ALTA E CIDADE BAIXA DO PORTO DE SÃO MATEUS


Dos seus “menino”, o mais valente de todos era Zé Apolinário, “negro fino, de quase dois metro. Batia com uma violência que dava mêdo. Era angico, não tinha carne. Coitado do inimigo. Era cada pancada que desmontava qualqué um. Tinha perna cumprida e arcançava o freguêis longe. Uma cabeçada que pudia derrubá um boi. Era um grande lutadô da Angola. Conhecia a ginga e a mandinga como ninguém”―lembrava.
Depois disso, Teodorinho tomou o rumo do Sapé do Norte. Caiu “no mato” com os companheiros. Vez por outra, aparecia na cidade escondido, “pra cumprá fumo, sal, pólvora, tecido. Mas vivê na cidade não era mais possível. Ia sê briga na certa”. Cada vez mais tinha um maior contingente policial, e aí era vencer ou morrer.
Contava que “esperamo eles no mato, mas nada aconteceu, até nunca mais sê preciso. Mais nunca perdêmo uma briga. Sempre subemo da hora certa e como atacá o inimigo. Eles pensava que nóis ia corrê, mas era pura mandinga, chamando eles pro nosso terrêro. Agora, tô muito velho, mais de cem ano. Mesmo assim, tô pronto pra luta se fô precisão e com os menino que costuma andá por aqui, sempre na vera, que quem pode mais chora menos”―dizia, sorrindo.
Teodorinho falava da capoeira Angola como parte de sua vida―do golpe que deixava o inimigo “estribuchando”―, ainda com gestos rápidos, as mãos espalmadas, os braços em movimentos cadenciados “pra confundi o inimigo”. A ginga do corpo ainda refletia grande equilíbrio, mostrando como arrancar uma faca, um pau ou um revólver da mão do adversário. Ora com suavidade, ora com indescritível força, parecendo um tigre, um crocodilo, um leão do longe das reminiscências da África distante: “É a luta da Angola que faz isso, deixa a gente mais moço”―falava, balançando o corpo no terreiro de chão batido da casa de pau-a-pique no sertão de São Mateus.
Vez por outra, parava para explicar os golpes. A Meia Lua é um em que o jogador rodopia com a perna no ar, podendo acertar o inimigo em qualquer parte do corpo. Para se defender, basta dar uma descida no corpo e partir ao ataque com um Rabo-de-Arraia, aplicado no jogo de baixo, como uma chicotada, procurando atingir a cabeça do inimigo com o lado do pé. Para se defender, é preciso abaixar a cabeça para contra-atacar, com um conhecido como Calcanhar, pegando o adversário de baixo para cima.


Em movimentos às vezes lentos, o velho mestre ia demonstrando os golpes. O preferido era a Chapa de Frente, “violento, derrubava o inimigo com facilidade. Muitos morrero com essa pancada”. Era o que mais se aplicava, dependendo da distância e da posição do adversário. Depois vinha a Chapa de Costas, quando o inimigo pensava que o capoeira tinha indo embora. Para se defender da Chapa, bastava afastar o corpo e voltar ao ataque com uma Cabeçada, a cabeça no peito, no rosto ou no queixo do adversário, de baixo para cima. Ainda se pode aplicar uma cutelada na nuca.



O Mestre Trinca-Ferro vivia ali, no meio daquela floresta de eucaliptos. Havia perdido todos os vizinhos, “que venderam as terra”. Há mais de 30 anos não ia ao Porto de São Mateus. Ainda tinha o pressentimento de que a polícia estava lá, esperando. Já não tinha idade para correr: “Não ia ficá bem”―justificava.
Os gestos de um lutador, a impressionante flexibilidade das articulações, as mãos imensas, os braços em movimentos cadenciados, ora lentos, quase parando, ora rápidos, surpreendentes, faziam-no parecer uma pantera negra em busca de sua presa ou um quilombola enfrentando um capitão-do-mato.

Maquete do Quilombo do Morro construído sobre falésia. 

Teodorinho, ainda criança, presenciara, em 1881, a destruição do Quilombo do Morro ― foi perseguido pela captura e enfrentou preconceito e a prisão pelos “crimes” dos anseios de liberdade. Mas, conhecedor dos segredos do “apercebimento”, que durante os séculos de escravidão serviu de arma contra feitores e capatazes, soube se manter feito um guerreiro africano. O último guerreiro da luta da angola. E também mantinha uma Cabula para curar os males “da carne e do espírito”.

Maquete - Moradias no Quilombo do Morro

A impressão que ficou do velho quilombola jamais será esquecida: ora de um pássaro a desafiar a lei da gravidade; ora de um tigre, um leão, um crocodilo das savanas africanas, sempre com a sua arma ancestral. Uma lenda viva. O lendário Teodorinho Trinca-Ferro, hoje, vive na imaginação do povo e na alma dos "menino" que ainda fazem roda de capoeira no Largo do Chafariz - onde existiu o "pelourinho de maçaranduba" que os escravos retiraram e jogaram no rio -, diante do casario secular do Sítio Histórico Porto de São Mateus - o mais antigo território de lutas contra a escravidão no "Sul da Bahia" e Espírito Santo.
Nunca deixou de ser um quilombola, e, muito menos, de praticar a “luta travada” ou o “apercebimento de guerra”, sempre “pra valê”:
― Na vera, que a Angola não é pra  brincadêra!

Vista atual do Porto de São Mateus, outrora local do PELOURINHO DE MAÇARANDUBA

Agradecemos ao pesquisador Maciel de Aguiar pela concessão da transcrição de parte de sua obra. 
Agradecimentos também aos leitores do BLOGBIMBA, pelo acompanhamento de tão instigante narrativa.


quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Continuação TEODORINHO TRINCA-FERRO


Continuação TEODORINHO TRINCA-FERRO 
2ª partição





Dos antigos, com quem aprendeu a “mandinga”, recordava-se de alguns, cujas reminiscências transformavam-se em diversos causos que sua memória privilegiada sabia resgatar: “Zé Pequeno, Boca Preta, Mão de Onça, Calango, Dez Pedaços, Hilário Braúna, Jacaré, João Quebra Coco, Negro Saci, Manoel Mata Onça, Corre Diabo e Clementino Coice de Mula” ― citou sem pestanejar.


Dentre os escravos que conheceu, “pelos mato, enfrentando o capitão e a força” falava especialmente de Zé Pequeno, Dez Pedaços, Corre Diabo e Negro Saci como sendo seus professores. Levou “muita surra” para aprender os fundamentos do “apercebimento”. Dizia que ninguém foi maior que Hilário Braúna ou Manoel Mata Onça: “Pra esses dois, não tinha arma de fogo que desse jeito. Quando vinha pra cima dos soldado, arrebentava tudo. Nada ficava de pé. Eles tinha a força do estampido do trovão. Saia arrancando pedaço de pau com golpe de pé de mão no meio da mata que dava medo” ― afirmava, ilustrando a história com alguns casos.
Contou que, em certa ocasião, o negro Hilário Braúna foi emboscado pela Força, na mata, do outro lado do Mucuri, na Bahia. Tinha uns trinta soldados comandados pelo capitão-do-mato de nome Cearense, “que era um matadô medonho”. Mas não teve medo. Quando Hilário atravessou o rio a nado, foi recebido a tiros pela captura, que não deixava ele sair de dentro da água barrenta.
Ele mergulhou e vazou longe, rodou por trás e pegou a Força pela retaguarda. Derrubou uma dúzia de soldados “na perna, arrebentando o peito e os osso deles na escuridão da noite”. Os que puderam fugir tiveram que cair no rio. Alguns ficaram estirados, moídos pelos golpes da “luta travada” sem que o negro Braúna tivesse sofrido um arranhão.
O temido capitão-do-mato havia jurado a morte dele, mas, antes da Abolição, morreu no Quilombo de Sant’Ana, na luta com negro Rugério. Hilário “morreu de velho, na mata, muito tempo depois” ― disse Teodorinho. Mas o caso que ficou conhecido foi o de Manoel Mata Onça, escravo da fazenda de Dona Rita Maria Conceição Gomes da Cunha, mãe do Barão de Aymorés. Tinha quase dois metros e era muito forte. Só andava pela mata, de noite, feito bicho. Um dia, “lá pras banda do Aricanga”, encontrou duas onças pintadas. “Os bicho partiram pra cima dele”.
Manoel enfrentou os animais “na perna e na mão. Foi matando um por um no golpe e no facão”. Dizem que, depois, amarrou um em cima do outro e, numa zorra (espécie de trenó para puxar madeira), os trouxe até onde viviam uns negros escondidos. “comeram a carne num assado” ― contava, com orgulho.
Admitia que aprendera mesmo “a luta da angola” com Zé Pequeno, Dez Pedaços, Corre Diabo e Negro Saci. “Ainda molecote”, tinha de enfrenta-los de vez em quanto, “na vera”, chegando a “apanhar de ficar moído no chão, quase morto”. Sabia que aquele ensinamento representava sua sobrevivência em frente o inimigo.
Teodorinho dizia, com um misto de satisfação e mágoa, que nunca tinha sido escravo. Não tinha sofrido a dor do padecimento nos ferros e nem a humilhação na Praça do Commércio, no Porto. Nunca tinha levado um açoite dos feitores. Quando deu por si, “já era rapazola, nos mato, junto com os negro fugido”. Tinha aprendido a “luta travada” e sabia que seria preciso passar por aquele aprendizado para que pudesse livrar-se do inimigo e “sabê se defender, no escapulo” ― situação inesperada e de necessidade de fuga.
Acreditava que havia cumprido boa parte de sua missão. Formara muitos “capoeira”, que formaram outros pelos anos que se seguiram. Lembrava-se de alguns dos “menino”que aprenderam o “apercebimento de guerra" apanhando. Vinham pra cima pra arrancar a cabêça, nunca queria perdê”. Tinham o sangue dos quilombolas, sangue do negro que nunca aceitou a escravidão. Gente que sabia que “tinha uma arma na mão, na cabeça e no pé” ― falava.
Dos que aprenderam com ele, recordava-se de Afonsinho Brandino ― o Vira Tora, Cisplatino Curió, Pelo Avesso, Otávio Busca-Pé, Balbino Andrezza ― o Vaga-Lume, Coração de Seda, João Ferro Velho, Serafim dos Santos, Mateuzinho da Hora, Benedito Gonçalo ― o Cana Brava, João Geraldino, Binote Valeriano, Clementino Alexandre ― o Tromba d’Água, Arildo Serafim, Zé Apolinário, Ambrósio da Conceição, Benedito Alexandre e Lourenço dos Anjos ― o Estica Couro.
Desses “menino”, muitos já haviam morrido, outros nunca mais soube notícias. Relembrava casos de muitas brigas na Cidade Baixa de São Mateus, “quando ia pra lá arranjá emprego na estiva e acabava se metendo em encrenca com polícia por causa de mulhé dama”. Naquele tempo, na Cidade Baixa de São Mateus ― com o comércio marítimo dominado pelos grandes negociantes de farinha de mandioca, café e madeira ―, o Porto era o único lugar para o ex-escravo trabalhar.
Nunca “fugiu da briga, mesmo que fosse pra enfrentá arma de fogo. Não era pra corrê do estanho. Tinha que desviá da bala e, se o tiro fosse de mosquetão, tinha que desviá do chumbo. Mas não podia corrê. Não podia ficá com medo. Tinha que quebrá o inimigo na perna, na cabeçada ou no cutelo” ― garantia o mestre.
Lamentava a morte, “covarde”, de alguns de seus “menino”, como o caso de Pelo Avesso: “Ele tava brigando com uns polícia e um terceiro atirou pela costa, na covardia. Sabia que, de frente, não iam aguentá com Pelo Avesso” ― que recebeu o apelido por dizer sempre que ia virar o inimigo pelo avesso.


Lembrava que esse caso se deu em função de um policial ter dado uma surra numa criança que tinha roubado uma manga num quintal da Rua dos Ricos: “Era só uma fruta pra matá a fome. Mas o polícia pegô o menino e bateu que dava pena. Foi quando avisáro a Pelo Avesso, que já veio arrebentando os polícia. Já tinha derrubado dois na perna”. Nessa época, “matar um negro não era crime. Penso que até agora também não é” ― contou, ainda com revolta.
Dizia que, após a Abolição, os negros ficaram ainda mais sujeitos a apanhar dos soldados e dos capangas dos senhores. Muitos tinham medo de reagir. “Apanhava feito boi teimoso”. Mas quando era um “que eles chamava de capoêra, a coisa ficava diferente. Muito que levantô a mão pra batê nunca mais viu a luz do dia. Recebêro um golpe que não dava tempo para pensá. Caía no chão, estribuchando”― dizia.

Próxima parte em 17.10.2012.

FMB agradece sua visita. 


sexta-feira, 28 de setembro de 2012

TEODORINHO TRINCA-FERRO - 1ª partição



Prezados leitores do BLOGBIMBA.

Agradecemos o seu retorno ao BLOGBIMBA para conhecer aspectos da nossa história não contemplada na historiografia oficial.


TEODORINHO TRINCA-FERRO, pag. 23-26
Encontro de Maciel com Teodorinho Trinca-Ferro
Texto reproduzido com autorização do autor.


TEODORINHO TRINCA-FERRO
Acervo: Maciel de Aguiar


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Havíamos nos reunidos em outras ocasiões, desde 1966, mas a ultima vez que o vi, em meados de setembro de 1980, já centenário, foi inesquecível. O encontro foi promovido por Zoroastro Valeriano Rodrigues, o Soberano Imperador da Mauritânia, mestre da Marajuda e morador da localidade de Droga, no sertão de São Mateus, depois do recado: “O veio tá esperando o sinhozinho pra falá da luta da Angola”.
Para chegar ao local, era necessário o auxílio de um guia. A região havia sido ocupada por grandes fazendas ― inclusive as de reprodução de escravos. Após 1967, uma empresa reflorestadora havia adquirido a maior parte dessas terras para o plantio de eucalipto, deixando-o ilhado, numa pequena gleba: uma casinha de pau-a-pique, uns roçados de milho , feijão e mandioca, e as criações soltas.
No dia marcado, chegamos à porteira de sua pequena propriedade, depois de quase uma hora de viagem a partir do Centro de São Mateus, passando pelas imensas “avenidas” de eucaliptos. Logo avistamos aquele negro alto, de mais de um século de existência, no “cabo da enxada”, na preparação da terra para o plantio de mandibas, “pra continuá sobrevivendo, até o dia em que Deus quisé, meu sinhô” ― recebeu-nos com prazer e cordialidade.
Após outros assuntos, iniciamos a conversa sobre a capoeira. Teodorinho, ainda com a agilidade que o século de existência não conseguia acabar, contou passagens de sua vida. Depois balançou o corpo na ginga da luta, querendo de imediato demonstrar como eram os golpes: as mãos sempre espalmadas, os braços longos em movimentos ― ora de fora para dentro, ora de dentro para fora ― com malícia e destreza surpreendentes.
O movimento sincronizado do corpo de mais de um século e a flexibilidade das velhas articulações foram coisas que logo nos impressionaram e nunca esquecemos. Chamou Agenor Evangelista, que também nos acompanhava, à luta, enquanto Zoroastro marcava a cadencia com as mãos “batendo liquaqua”
Evangelista, que tinha a metade da sua idade, estava frente a frente com o lendário Teodorinho Trinca-Ferro, há décadas temido pela precisão dos golpes da Angola. Sem conhecer os segredos do “apercebimento da guerra”, Agenor quase foi ao chão, com uma Meia Lua - rasteira indefensável. Depois veio uma Chapa de Frente. Desta vez não resistiu.
Após a queda, Teodorinho quis deixar claro a seus visitantes que a luta era para valer e não para brincar: “Não é pra demonstração”. Segundo ele, “isso é coisa de gente que qué acabá com a luta travada, gente que não sabe nada desse assunto, que vive se mostrando nas praças como um teatro. Angola não e pra isso. É pra defesa e ataque. Quem pode mais chora menos” ― dizia.
Segundo Trinca-Ferro, a capoeira “de brincadeira é pra quem não tem o que fazê”. Se alguém o chamasse para a “luta travada”, sabia que, se descuidasse, podia até morrer. Não tinha brincadeira. Levava uma Chapa de Frente, uma Cabeçada ou um Rabo-de-arraia. Se o “freguêis não tivesse preparo, podia ir pra cova” ― afirmava, convicto.
O século de existência não havia tirado daquele velho quilombola o principal fundamento do espírito da “luta”. E esse fundamento provavelmente tinha vindo da África distante, trazido dos porões dos navios, na imaginação dos negros, ao se recordarem dos animais em luta pela sobrevivência. Era assim que se sentiam: “Animais em feitio de gente que vinha pra fazê a fortuna dos brancos”.
Aquela “arma”, com certeza, vinha das lembranças dos tempos de liberdade dos seus ancestrais, nas savanas africanas, sendo indispensável a sobrevivência dos escravos que iam enfrentar um inimigo feroz e implacável: o sistema escravocrata que se implantava no Brasil.
 O Mestre Teodorinho trazia a mesma disposição dos anos em que desafiava os feitores, capatazes e polícia. Praticava a “luta travada” desde criança. Aprendera com “os velho, antes da Abolição da escravatura”, principalmente com os escravos fugidos. Lembrava-se de alguns deles, “gente que enfrentava a força e o capitão-do-mato com os golpe das mão e dos pé, e que também tinha o corpo fechado na Cabula” ― contava.
Rememorava, ainda, de seu tempo do Quilombo do Morro. Não conheceu mãe nem pai, que eram “nação ― assim chamados os nascidos na África ―, acrescentndo que, desde que se entendeu por gente, “vivia pelos mato, com os bando dos negro fugido, rapazola ainda”― dizia.

      Dos antigos, com quem aprendeu a “mandinga”, recordava-se de alguns, cujas reminiscências transformavam-se em diversos causos que sua memória privilegiada sabia resgatar: “Zé Pequeno, Boca Preta, Mão de Onça, Calango, Dez Pedaços, Hilário Braúna, Jacaré, João Quebra Coco, Negro Saci, Manoel Mata Onça, Corre Diabo e Clementino Coice de Mula” ― citou sem pestanejar.


Acompanhe no BLOGBIMBA a 2ª partição.